
Alguns frequentadores do bandejão tentavam estabelecer com ele algum vínculo, mas era muito difícil. Outros, faziam dele motivo de piada. Já eu, sempre lhe sinalizava com a cabeça em um ato de agradecimento. Era quase impossível tentar conversar. Aliás, ele nem podia, que bobagem. Minha maior ação afetiva foi lhe pagar o almoço sem que ele soubesse. Juro que queria ter visto a reação do seu Agostinho.
Agostin, Augostinho ou Agustin... Nunca soubemos direito sequer seu nome. Mas mantínhamos com ele, pelo menos alguns de nós, uma relação de carinho e silencioso respeito.
Seu Augustim comia muito, aumentando ainda mais o escárnio de algumas pessoas contra ele. Sempre achei que era sua única refeição diária. Um prato só para as saladas. O outro com muito, muito arroz mesmo. De sobremesa, umas quatro ou cinco laranjas. Ele tinha até uma comunidade no Orkut chamada "Véi da Flauta", que a princípio eu achava meio preconceituosa, pelo nome. Hoje nem sei como está porque felizmente não tenho mais Orkut.
Todos os dias após tocar e almoçar, seo Agustin retornava para casa caminhando e tocando sua flauta sem furos pelas ruas do Campus até o bairro ao lado, onde morava.
Apesar da fala atrapalhada, ele explicou nesse vídeo como aprendeu a tocar: ouvindo os passarinhos, as paredes e os prédios cheios de canos. Por uma ironia qualquer, bem em frente às salas da Escola de Música, ele diz que os prédios estão dormindo.
"- Aos canos só lhes falta o vento".
Pessoas como seu Agostinho fazem muita falta.
* Texto em homenagem ao Seu Agostinho, o Velho da Flauta, cuja flauta o vento ainda sopra gentilmente na memória.
3 comentários:
o véi da flauta é demais. só não entendi o "santíssimo"...pq essa necessidade de racionalizar? o vento no cano, a música aparece...simples assim.
Concordo. Aliás, o vídeo nunca terminou ou se terminou não mostraram pra ninguém. Acho que fizeram um trocadilho com Santo Agostinho. Santo não, mas na minha modesta opinião ele merecia uma estátua. O filme seria uma bonita homenagem, já que a universidade não se digna a isso.
há uma longa e interessante entrevista que os autores não publicam, apesar da insistência.Ali ele diz o nome de cada flauta. De arrepiar! Vc, que além de sujo e atleticano é influente, poderia conseguir isso...
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